quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Vidas Secas Humanas


Minha proposta de vida é alcançar um elevado objetivo: tornar-me humana, humanizar-me. Desafios são tarefas árduas, requerem trajetórias, não comportam imediatismos, apresentam obstáculos. Enfrento uma peleja diária com o feroz inimigo da minh’alma: eu mesmo.

Caminhos são estreitos. Na Biologia, somos classificados como pertencentes a espécie do homo sapiens, embora a tendência é a da desumanização do ser. Afastar do que é humano gera um processo de degradação, quer seja manifestar a animalização ou almejar a divinização do homem.

Graciliano Ramos escreveu a clássica obra “Vidas Secas”. Na paisagem do sertão nordestino, o autor descreve a decadência humana diante da pobreza, uma identidade deturpada. Fabiano, juntamente com sua família, são caracterizados como animais: falam pouco, resmungam, brigam, xingam, sobrevivem. Uma integrante do lar considerada a mais humana, solidária e sensível dentre todos, é a cachorra Baleia. A narrativa enfatiza a inversão das naturezas entre homens e animais.

As descrições no conto O lixo, de Suênio Trindade Alves, se assemelham quanto às indagações, afirmações e dúvidas de Fabiano, personagem de Graciliano. Este, no mesmo instante que afirma ser um homem, quando volta a olhar sua realidade, corrige dizendo: “Você é um bicho, Fabiano”. Aquela criatura, em algum momento se confunde com suas atitudes apresentadas pela bruta vida.

Opondo-se, também há algo perigoso e descaraterizador de indivíduos. Achar-se ser um "deus" e detentor de todo poder, cria-se uma distância da verdadeira identidade. Como ilustração, podemos citar o filme “Todo Poderoso”, encenado por Jim Carrey, no qual o jornalista Bruce Nolan, chateado com a vida passa a resmungar com Deus e este lhe oferece os poderes eternos. Por fim, Bruce admite que ser Deus não é facil e está visivelmente patente que ele se utilizou das prerrogativas metafísicas somente para a satisfação de seu ego.

A religião é propícia para tal questão. Ela sempre estimulou os homens a buscar ser o “Ser”, atingir a perfeição, ter o poder, divinizar-se. Evangélicos, mais do que nunca, montam um discurso triunfalista, arrogante e autoritário. Na história da igreja é perceptível que, vários conflitos entre determinados povos e nações se deu através do argumento religioso. Podemos citar, por exemplo, a Ruanda entre hutus e tutsis, as Cruzadas (cristãos e muçulmanos), a França com os Huguenotes (calvinistas), a Irlanda entre católicos e protestantes, a guerra santa do século XXI.

Ainda existem brigas para alcançar a religião, a doutrina e a teologia perfeita, para ser o próximo integrante do rol de membros dos bilionários do mundo, para se elevar diante das pessoas e desprezá-las, para ter o controle do mundo e o futuro nas mãos, para possuir cargos, posições, reconhecimento público e fama. A lógica do narcisismo invade e é permeada por toda a história humana.

Estou confusa: Há distinção entre o que é animalizado e endeusado? Parecem que ambos se fundem. Ando numa linha tênue, na corda bamba do alto de edifícios. Equilibro para não ser tentado nas secas vidas humanas. Preciso de pessoas, pois quando tropeçar, existem vidas que não me deixarão sucumbir no abismo da prepotência ou do vazio existencial, e vice-versa, até que juntos, alcancemos o alvo que nos inspira: ser exemplos de humanidade.

Pensem aí.
Beijos.

7 comentários:

Anônimo disse...

Querida Bruna, ainda hoje pensava que especialmente na cidade grande,como São Paulo, a gente se perde no meio de uma multidão apavorada que corre sem parar, e muitas vezes sem pensar para onde vai.
Parece que nossa vida não faz diferença.(Porém sabemos que faz!)
Quero que meus filhos vejam que fazemos diferença, sim! E a diferença está em estarmos ligados na Videira verdadeira que renova em nós a seiva, para que não venhamos a viver VIDAS SECAS,mas para que assim, possamos dar muitos frutos, frutos de paz, alegria e amor.
Um abração

Anônimo disse...

Amei seu texto, viu Bru?
Não apenas por sua reflexão, mas porque te vejo em teus escritos.
Que ser humano, seja um tratado de nossas vidas!
Beijos.

Lucrécio Arrais disse...

Nossa, você escreve super bem :)

Valeu por passar lá na minha pane, tou te linkando, viu?

Beijo grande...

Anônimo disse...

hhee jah lii trechos de Vidas secas
é incrivel como ramos retrata tao bem o nordeestee neh
bejooo

Lucrécio Arrais disse...

Ah, acho que nem tem... mas neologismo é chique, né?

Beijos ;)

Mochileira disse...

Respondendo, como é que tem que ser.

Margaret, é sempre um prazer tê-la aqui. Acho que todo mundo segue uma espécie de "vida-com-uma-rotina-medíocre-ever". Sei lá, entende?

Julie, talvez porque me conhece bem... Entende aquilo que eu quero dizer, mesmo sem dizer.

Luctoller, como sempre... Amigos novos, sempre bem vindos.

Camila, depende do ponto de vista observado. Características do Nordeste brasileiro podem ser colocadas em São Paulo? Na minha opinião sim.

Bjs pra todos!

Luana H. disse...

Não sei, não sei...
Acho que a poesia e a música promovem essa elevação de alma, que nos o devolve o SER. sabe?
Penso nisso todos os dias...

E não deixe de acompanhar a sina da Lena, heim!...hehe.
Logo logo posto mais alguma coisa sobre ela.


beijão e bom fim de semana.