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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Machado de Assis na Rede Globo

“Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim.” Dom Casmurro

Os olhos mais famosos da literatura brasileira estão reencarnando novamente. Capitu, a enigmática heroína de Machado de Assis, revivida, inúmeras vezes, no cinema, no teatro e na música, ganhou duas intérpretes na TV. São atrizes de estilos diferentes - uma desconhecida e moderna (Letícia Persiles), outra famosa e clássica (Maria Fernanda Cândido) - mas não há dúvidas sobre por que serão as protagonistas das duas fases de "Capitu", nova minissérie da Rede Globo: ambas possuem olhos que ameaçam arrastar e tragar. Perfeitos - e idênticos - olhos de ressaca.

Será um ensaio sobre a dúvida - resume Luiz Fernando Carvalho, que dirigirá a minissérie. Desde o fim de março, os atores, a maioria vinda do teatro, vêm se reunindo para uma preparação de(d/l)icada.

Desde que tomou um susto com o convite do diretor, que a viu num show do Manacá, sua banda que mistura rock com ritmos folclóricos, o diretor teve certeza de que sua procura por uma protagonista terminara, Letícia vem tentando decifrar a Capitu menina que vai interpretar, uma garota meio moleca, mas sedutora, de 14 anos. Letícia diz ter consciência da responsabilidade de interpretar uma protagonista em uma minissérie "global", mas nos ensaios não parecia preocupada com a possibilidade de fama, dizem.

Procurei sentir o frescor da adolescência e remexi minhas coisas, relendo cartas antigas, de namorados - afirma a interprete da Capitu menina, que montou uma caixa com objetos que a têm ajudado nessa descoberta da menina plena de vida. Guardo cartas, luvinhas de renda, elementos da época - diz a atriz, que carregou a caixinha para o telhado do prédio onde mora e para perto do mar, tentando respirar com o peito aberto, como acredita que Capitu fazia.

Mas, não, não adianta esperar que o mistério que assombra a literatura e inspira tratados psicanalíticos (Capitu traiu ou não o marido com seu melhor amigo, Escobar?) tenha uma conclusão na TV. Apesar de dar nome à minissérie, a mulher dos "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" não terá a chance de contar a sua versão da tragédia. Como no livro, ouviremos os fatos de um narrador casmurro e obcecado: Bento, interpretado pelo ator, poeta e apresentador Michel Melamed.

Maria Fernanda também foi construindo aos poucos a sua Capitu - a mulher e a menina terão o mesmo peso nos capítulos. Como Letícia, ela fala com doçura sobre a composição da personagem. E diz que o que menos importa é o dilema da traição.

Vejo a Capitu como uma mulher livre, com sede de vida e coragem para ser feliz. Uma mulher intensa, muito julgada, apontada por todos, mas que segue a vida sem amargura - diz Maria Fernanda, dona de olhares sedutoríssimos (como diria José Dias) e singulares.

Maria Fernanda vem tendo aulas de piano e, acostumada ao ritmo industrial das novelas, tem celebrado uma concepção carregada de significados. - A gente erra junto, joga uma coisa no lixo, guarda outra na gaveta. Cada um tem a sua Capitu - acredita a atriz.

Agora é esperar e conferir.


P.S – E você, já leu Dom Casmurro? Se não, corra logo e vá tomar partido de alguém...

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Sagarana - Assisti e comentei

Será que Manuel Fulô enfrentará Targino?

Essa é a pergunta que você se faz enquanto assiste a peça teatral "Corpo Fechado" - Um dos contos do livro "Sagarana" de Guimarães Rosa.

A história é simples: O médico de Laginha vivido por Rogério Costa, é convidado por Manuel Fulô, interpretado por Ronald Liano, para ser seu padrinho de casamento. O fato é que Manuel é um sujeitinho que faz muito descaso de qualquer tipo de trabalho, e em meio à algumas rodas de cervejas, conta para o médico suas histórias e sobre os valentões da cidade.

E aí, se desenrola a história. Manuel conta para o doutor suas trapaças pela vida, em busca de seus gostos e desejos, e por fim, mata o Targino numa briga.

Até aí, o expectador fica atento as palavras de Manuel, e em pouco tempo, o que era Corpo fechado, vira "Sarapalha"; E aí, você encontra primo Ribeiro e primo Argemiro.

Nesse conto, Guimarães Rosa mostra a situação de duas pessoas com malária, que moram num local onde seus habitantes já foram dizimados pela doença. E, além de sofrer da doença, ambos sofrem de amor: Um por ter perdido a mulher para outro homem, e o outro por não conseguir confessar seu amor pela mulher do primo querido.

"Onde está Luísa? Por onde anda?"

Bom, em primeiro lugar gostaria de parabenizar Ronald e Rogério por interpretações tão intensas, belas e memoráveis! A interpretação dos dois é um bom exemplo de que o Brasil tem sim grandes atores, e que consegue fazer adaptações de espetáculos consagrados tão boas quanto as originais.

E pra encerrar, digo: É incrível ver como contos escritos não se perdem ao longo dos anos. Como tudo o que Guimarães escreveu em seu tempo ilustre, nos alcança atualmente. Como a escrita consegue nos transportar para dimensões totalmente distantes dos parâmetros que vivemos.

E no mais, bom espetáculo!

terça-feira, 29 de abril de 2008

Miss Saigon - Assisti e comentei.

Quem vai ser a Miss Saigon? Essa frase é a pergunta que as prostitutas vietnamitas cantam no bordel e que acaba selando o destino da personagem Kim. A jovem camponesa é retirada de sua família durante a guerra com os Estados Unidos e é então jogada em um prostíbulo pelo cafetão “Engenheiro”. Em sua primeira noite, o encontro com o soldado Chris, muda sua história. Em uma grande loteria, onde jovens mulheres sonham em se ver livres do seu país, através de uma história de amor com algum americano, Kim vê uma saída no fim do túnel.

O musical é na realidade uma crítica ao sonho americano e aos efeitos devastadores da guerra. Enquanto no papel o Vietnã saiu vitorioso, na prática a vitória demorou a ser sentida pelos habitantes. Kim, a protagonista, não conseguiu sair da prostituição, e sua paixão avassaladora pelo soldado americano se tornou um fantasma fatal, materializado com o nascimento de um filho.

O musical é um bom exemplo da capacidade do Brasil em fazer adaptações dos espetáculos consagrados nos grandes teatros nova-iorquinos e ingleses (apesar de que também aposto em montagens tupiniquins próprias). Os atores, cantores e bailarinos desempenham com excelência os seus papéis. É de dar gosto de ver. Destaque para a cantora Lissah, que no passado fez parte do grupo Rouge. Interpretando a protagonista da história, ela se redime, mostrando que é capaz de participar de um espetáculo de grande nível.
Mas o show mesmo fica por conta do ator Marcos Tumura, que interpreta o cafetão. Sensacional.

Sinceramente, a música do casal não se compara aos grandes temas como Fantasma da Ópera ou A Bela e a Fera, chegando até ser um pouco chata (achei a letra sofrível), mas a canção American Dream é de tirar o chapéu. Nela, o Engenheiro mostra todo o seu sonho de chegar aos Estados Unidos. Enquanto ele lastima sobre sua situação no oriente e canta seu desejo de ser um yankee, dançarinas no melhor estilo Marilyn Monroe invadem o palco.

No fundo projeções da Estátua da Liberdade estilizada são exibidas, ilustrando as facilidades e ilusões do american way of life que ele tanta deseja. Porém, a ironia da música, e a boa interpretação do ator, deixam clara a crítica que ali é feita (juro que ainda quero ver a versão americana desse espetáculo). Certamente essa parte vale a montagem.

Outro momento memorável é quando as tropas são retiradas de Saigon e num jogo de cenografia maravilhoso as grades dançam com os atores no palco uma coreografia perfeita, hora mostrando a embaixada americana, hora enfocando os soldados e por fim o abandono de quem não conseguiu entrar no helicóptero. Uma das partes mais trágicas da história mostra a triste e fatal separação do casal, porém quem realmente chama atenção é o som 5.1 do Teatro e a projeção da aeronave de guerra quase em tamanho real. Simplesmente maravilhoso. Uma boa solução para o problema de colocar um helicóptero no palco, como é feito na Broadway americana.

A separação acontece, a prostituta é abandonada e o soldado retorna ao seu país de origem. O tempo passa e a história caminha até mostrar Chris casado com uma outra mulher, morando nos Estados Unidos, mas sonhando com Kim no Vietnã. Por sua vez, a jovem gerou um filho e se agarra as promessas de que o “marido” voltaria para buscá-los e então terem uma nova vida longe dali, como a fora prometido. Nada mais típico.

Com um difícil desfecho pacífico, a platéia se pergunta: o que fazer? Deveria Chris separar da atual esposa e cumprir a promessa à mulher vietnamita de levá-la para viver na América? Deveria ele pegar o filho e criá-lo como a esposa atual? Sem respostas e sem ter a chance de se encontrar com o amado, Kim decide por ambos. Em vez dos aplausos, o silêncio. Silêncio para o Vietnã hoje, para os filhos de americanos abandonados e para o american dream. Bom espetáculo.


Ah! Uma dúvida minha: a criança que interpreta o filho dos protagonistas pode trabalhar num espetáculo como esse? A censura é 12 anos e o menino deve ter no máximo uns 5. Alguém sabe responder?